Baseado nos conceitos de Early Appropriate Care (Vallier et al.), classificação WSES para trauma pélvico, e guidelines ESTES/DGU 2024. Adaptado à realidade de um hospital sem cirurgia plástica nem vascular, com equipas de ortopedia por áreas anatómicas e bloco de trauma rotativo.
O paradigma atual é o Early Appropriate Care (EAC), que substitui a dicotomia rígida ETC vs DCO. Após a ressuscitação inicial, utilizam-se parâmetros fisiológicos para decidir se o doente tolera cirurgia definitiva precoce ou necessita de Damage Control.
Se os três critérios forem cumpridos após ressuscitação adequada, o risco de complicações com tratamento definitivo imediato não é superior ao do Damage Control.
Considerar adicionalmente: Temperatura >35°C, Plaquetas >90.000, Tempo cirúrgico previsto <90 min, Transfusão <10 UCE.
Classificação integrada: WSES (I–IV) combinando instabilidade hemodinâmica + mecânica (Young-Burgess).
| Cenário | Decisão | Detalhes |
|---|---|---|
| HD Instável + cinta ineficaz | Fixador externo / Clamp pélvico imediato | Se hemorragia persiste → packing pré-peritoneal ± embolização arterial. Considerar REBOA se disponível. |
| Vallier negativo (respondeu mal à ressuscitação) | Fixador externo | Mesmo que estabilize com fluidos, não fazer OSS definitiva. DCO até critérios cumpridos. |
| HD Estável + Vallier + Bloco disponível <48h |
OSS definitiva precoce | TC com contraste para planeamento. Estabilização definitiva do anel pélvico. |
| HD Estável + Vallier + Sem bloco <48h |
Fixador externo como ponte | Não é legítimo deixar uma fratura instável da bacia sem fixação até ao 10º dia. Colocar fixador e programar definitiva. |
| HD Estável + mecanicamente estável | Tratamento conservador / NOM | WSES I (APC-I, LC-I). Vigilância, analgesia, mobilização precoce. |
A fratura diafisária do fémur é a situação clássica em que o doente beneficia de encavilhamento precoce. É onde os critérios de Vallier são mais determinantes para evitar complicações pulmonares.
| Cenário | Decisão | Timing |
|---|---|---|
| HD estável + Vallier + | Encavilhamento endomedular | O mais precoce possível, idealmente <24h. Benefício comprovado na redução de complicações pulmonares e tempo de internamento. |
| HD instável / Vallier − | Fixador externo | DCO. Conversão para cavilha quando critérios de Vallier cumpridos. |
| Exposta G1/G2/G3A + Estável | Lavagem, desbridamento + encavilhamento | No próprio dia, se possível. ATB iniciada no SU. |
| Cenário | Decisão | Notas |
|---|---|---|
| Fechada ou Gustilo 1, 2, 3A + Estável | Lavagem, desbridamento + encavilhamento | Benefício em tratar no próprio dia. Sem vantagem de cirurgia noturna vs 1ª hora da manhã se ATB iniciada. |
| Gustilo 3B | Fixador externo | Sem cirurgia plástica para cobertura. Lavagem + desbridamento + fixador. Referenciar para cobertura de tecidos moles. |
| Gustilo 3C | Fixador externo + transferência | Lesão vascular → sem cirurgia vascular. Estabilização temporária + transferência urgente. |
| Fase | Ação |
|---|---|
| Aguda (Dia 0) | Fixador externo spanning tibiotársico ± fibular se necessário. Elevação do membro. Gelo. |
| Diferida (7–14 dias) | Quando sinal da prega positivo → OSS definitiva (placa, parafusos). |
Em teoria, beneficiam de fixação definitiva precoce. Na prática, depende da disponibilidade de bloco e das condições de partes moles.
| Cenário | Decisão |
|---|---|
| Boas condições de pele + bloco disponível | OSS definitiva precoce — preferível a tala/gesso prolongado ou fixador externo para diferir. |
| Edema significativo / flictenas / alta energia | Fixador externo spanning como ponte até melhoria das partes moles. |
As fraturas expostas do membro superior têm taxas de infeção significativamente mais baixas que as do membro inferior. Contudo:
| Cenário | Decisão |
|---|---|
| Exposta Gustilo 1, 2, 3A | Lavagem, desbridamento + OSS definitiva no próprio dia. Dados retrospetivos sugerem maior taxa de infeção quando fixação definitiva não realizada de imediato. |
| Fratura que seria conservadora se fechada, mas exposição puntiforme | Área cinzenta — escassa literatura. ATB IV, considerar tratar como fechada se verdadeiramente puntiforme e sem contaminação. Discussão caso a caso. |
Nos doentes estáveis com critérios de Vallier positivos, a evidência atual suporta osteossíntese definitiva imediata. O fixador externo reserva-se para situações específicas:
| Indicação | Racional |
|---|---|
| 1. Doente hemodinamicamente instável | Procedimento life-saving rápido. Prioridade é a ressuscitação, não a fixação definitiva. |
| 2. Critérios de Vallier negativos (má resposta à ressuscitação) | Risco acrescido de complicações pulmonares e ARDS com cirurgia definitiva precoce ("second hit"). |
| 3. Fratura exposta Gustilo 3B / 3C | Necessidade de cobertura de tecidos moles (3B) ou reparação vascular (3C) — indisponíveis localmente. |
| 4. Más condições de partes moles | Flictenas, edema severo (pilões tibiais, pratos de alta energia, calcâneo). Esperar sinal da prega. |
| 5. Bacia instável sem bloco disponível em <48h | Ponte para cirurgia definitiva. Não é aceitável deixar bacia instável sem fixação. |
| Gustilo | Antibioterapia | Duração | Timing Cirúrgico |
|---|---|---|---|
| I / II | Cefazolina 2g IV (ou cefalosporina 1ª geração) | 24h após lesão | Dentro de 24h. Sem urgência para cirurgia noturna. |
| IIIA | Cefazolina 2g IV + considerar aminoglicosídeo (controverso — evidência recente questiona benefício) | 48–72h ou 24h após encerramento da ferida | Dentro de 24h. Lavagem + desbridamento + OSS definitiva. |
| IIIB / IIIC | Cobertura alargada: Ceftriaxona 2g IV + Vancomicina (ou protocolo local) | 48–72h ou 24h após encerramento | Lavagem + desbridamento urgente. Fixador externo + referenciação. |
Contaminação especial: Solo agrícola → adicionar Penicilina alta dose (Clostridium). Água doce → cobertura antipseudomonas. Água salgada → Doxiciclina.
Profilaxia antitetânica: Sempre, conforme estado vacinal.
Num hospital com equipas por áreas anatómicas (cada uma com bloco de trauma num dia da semana), a decisão de tratamento no politraumatizado deve ser coordenada pelo ortopedista de urgência / coordenador de trauma ortopédico, independentemente da equipa de dia.
| Prioridade | Ação | Responsabilidade |
|---|---|---|
| IMEDIATA | Fixação externa na bacia, lavagem de expostas, fasciotomias | Equipa de urgência — qualquer ortopedista presente, independentemente da subespecialidade |
| URGENTE (<24h) | Encavilhamento do fémur, encavilhamento da tíbia, OSS de expostas G1-3A | Equipa de urgência + equipa da subespecialidade se disponível. Se critérios de Vallier +, não adiar. |
| PRECOCE (<48h) | OSS definitiva da bacia, acetábulo, fraturas articulares complexas | Equipa da subespecialidade — agendar no bloco de trauma da equipa responsável ou em bloco extra. |
| DIFERIDA (7–14 dias) | Pilões tibiais, calcâneo, fraturas com edema/flictenas | Equipa da subespecialidade — programar após sinal da prega positivo. |