Protocolo Institucional — Serviço de Urgência

Algoritmo de Abordagem Ortopédica ao Doente Politraumatizado

Baseado nos conceitos de Early Appropriate Care (Vallier et al.), classificação WSES para trauma pélvico, e guidelines ESTES/DGU 2024. Adaptado à realidade de um hospital sem cirurgia plástica nem vascular, com equipas de ortopedia por áreas anatómicas e bloco de trauma rotativo.

🏥 Pressupostos e Condicionantes Locais

  • Sem cirurgia plástica — cobertura de tecidos moles limitada (relevante para Gustilo 3B/3C)
  • Sem cirurgia vascular — lesões vasculares major requerem transferência
  • Equipas por áreas anatómicas — cada equipa com bloco de trauma num dia da semana
  • Capacidade cirúrgica limitada em <24h — nem sempre é possível operar tudo no próprio dia
  • Angioembolização disponível (confirmar com radiologia de intervenção)
  • Implicação prática: privilegiar OSS definitiva quando possível, evitando fixadores "por conveniência"
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Primary Survey — ABCDE e Estabilização Inicial

DOENTE POLITRAUMATIZADO — Sala de Emergência
<X>ABCDE — Controlo de hemorragia exsanguinante → Via aérea → Ventilação → Circulação → Disfunção neurológica → Exposição
Hemorragia pélvica suspeita?
Instabilidade hemodinâmica + mecanismo compatível + RX bacia / FAST +
Cinta pélvica imediata em todas as fraturas pélvicas instáveis
Ao nível dos grandes trocânteres, antes do RX se mecanismo sugestivo
Iniciar ressuscitação — Protocolo de transfusão maciça se indicado
Gasimetria arterial: Lactatos, pH, Excesso de Bases
⚠ Fraturas expostas — ação imediata no SU: Antibioterapia IV iniciada o mais precocemente possível (idealmente <1h), fotografia da ferida, cobertura com compressas embebidas em soro, imobilização provisória, profilaxia antitetânica. Não repetir inspeções desnecessárias da ferida.
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Avaliação da Resposta à Ressuscitação — Critérios de Vallier

O paradigma atual é o Early Appropriate Care (EAC), que substitui a dicotomia rígida ETC vs DCO. Após a ressuscitação inicial, utilizam-se parâmetros fisiológicos para decidir se o doente tolera cirurgia definitiva precoce ou necessita de Damage Control.

Critérios de Vallier — Segurança para OSS Definitiva

  • Lactatos < 4.0 mmol/L
  • pH > 7.25
  • Excesso de Bases > −5.5 mEq/L

Se os três critérios forem cumpridos após ressuscitação adequada, o risco de complicações com tratamento definitivo imediato não é superior ao do Damage Control.
Considerar adicionalmente: Temperatura >35°C, Plaquetas >90.000, Tempo cirúrgico previsto <90 min, Transfusão <10 UCE.

O doente cumpre critérios de Vallier?
✅ SIM — DOENTE ESTÁVEL
Early Appropriate Care
Osteossíntese definitiva precoce
TC com contraste (gold standard imagiológico)
❌ NÃO — DOENTE INSTÁVEL / BORDERLINE
Damage Control Orthopaedics
Fixação externa temporária
Procedimentos life-saving mínimos
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Decisão por Tipo de Fratura — Quando Fixador vs OSS Definitiva

3A. Fraturas da Bacia Instáveis

Classificação integrada: WSES (I–IV) combinando instabilidade hemodinâmica + mecânica (Young-Burgess).

Cenário Decisão Detalhes
HD Instável + cinta ineficaz Fixador externo / Clamp pélvico imediato Se hemorragia persiste → packing pré-peritoneal ± embolização arterial. Considerar REBOA se disponível.
Vallier negativo (respondeu mal à ressuscitação) Fixador externo Mesmo que estabilize com fluidos, não fazer OSS definitiva. DCO até critérios cumpridos.
HD Estável + Vallier +
Bloco disponível <48h
OSS definitiva precoce TC com contraste para planeamento. Estabilização definitiva do anel pélvico.
HD Estável + Vallier +
Sem bloco <48h
Fixador externo como ponte Não é legítimo deixar uma fratura instável da bacia sem fixação até ao 10º dia. Colocar fixador e programar definitiva.
HD Estável + mecanicamente estável Tratamento conservador / NOM WSES I (APC-I, LC-I). Vigilância, analgesia, mobilização precoce.

3B. Fraturas Diafisárias do Fémur

A fratura diafisária do fémur é a situação clássica em que o doente beneficia de encavilhamento precoce. É onde os critérios de Vallier são mais determinantes para evitar complicações pulmonares.

Cenário Decisão Timing
HD estável + Vallier + Encavilhamento endomedular O mais precoce possível, idealmente <24h. Benefício comprovado na redução de complicações pulmonares e tempo de internamento.
HD instável / Vallier − Fixador externo DCO. Conversão para cavilha quando critérios de Vallier cumpridos.
Exposta G1/G2/G3A + Estável Lavagem, desbridamento + encavilhamento No próprio dia, se possível. ATB iniciada no SU.

3C. Fraturas Diafisárias da Tíbia

Cenário Decisão Notas
Fechada ou Gustilo 1, 2, 3A + Estável Lavagem, desbridamento + encavilhamento Benefício em tratar no próprio dia. Sem vantagem de cirurgia noturna vs 1ª hora da manhã se ATB iniciada.
Gustilo 3B Fixador externo Sem cirurgia plástica para cobertura. Lavagem + desbridamento + fixador. Referenciar para cobertura de tecidos moles.
Gustilo 3C Fixador externo + transferência Lesão vascular → sem cirurgia vascular. Estabilização temporária + transferência urgente.

3D. Pilões Tibiais e Fraturas do Calcâneo

⚠ Exceção clássica: Estas fraturas de alta energia têm taxa elevada de complicações de pele. Não operar definitivamente na fase aguda. Esperar pelo "sinal da prega" (wrinkle test). Mas: em pilões de alta energia, colocar fixador externo spanning — não "rezar que a pele melhore por milagre."
FaseAção
Aguda (Dia 0)Fixador externo spanning tibiotársico ± fibular se necessário. Elevação do membro. Gelo.
Diferida (7–14 dias)Quando sinal da prega positivo → OSS definitiva (placa, parafusos).

3E. Fraturas Articulares Instáveis (Pratos Tibiais, Acetábulo, etc.)

Em teoria, beneficiam de fixação definitiva precoce. Na prática, depende da disponibilidade de bloco e das condições de partes moles.

CenárioDecisão
Boas condições de pele + bloco disponível OSS definitiva precoce — preferível a tala/gesso prolongado ou fixador externo para diferir.
Edema significativo / flictenas / alta energia Fixador externo spanning como ponte até melhoria das partes moles.

3F. Fraturas do Membro Superior (ex: Rádio Distal Exposto)

As fraturas expostas do membro superior têm taxas de infeção significativamente mais baixas que as do membro inferior. Contudo:

CenárioDecisão
Exposta Gustilo 1, 2, 3A Lavagem, desbridamento + OSS definitiva no próprio dia. Dados retrospetivos sugerem maior taxa de infeção quando fixação definitiva não realizada de imediato.
Fratura que seria conservadora se fechada, mas exposição puntiforme Área cinzenta — escassa literatura. ATB IV, considerar tratar como fechada se verdadeiramente puntiforme e sem contaminação. Discussão caso a caso.

3G. Síndrome de Compartimento

Fasciotomias urgentes — não diferir. A OSS definitiva pode ser realizada no mesmo tempo das fasciotomias, durante o encerramento, ou após o encerramento, com taxa de complicações equivalente em qualquer um dos timings. Não é argumento para colocar fixador externo.
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Resumo — Indicações para Fixador Externo

Nos doentes estáveis com critérios de Vallier positivos, a evidência atual suporta osteossíntese definitiva imediata. O fixador externo reserva-se para situações específicas:

IndicaçãoRacional
1. Doente hemodinamicamente instável Procedimento life-saving rápido. Prioridade é a ressuscitação, não a fixação definitiva.
2. Critérios de Vallier negativos (má resposta à ressuscitação) Risco acrescido de complicações pulmonares e ARDS com cirurgia definitiva precoce ("second hit").
3. Fratura exposta Gustilo 3B / 3C Necessidade de cobertura de tecidos moles (3B) ou reparação vascular (3C) — indisponíveis localmente.
4. Más condições de partes moles Flictenas, edema severo (pilões tibiais, pratos de alta energia, calcâneo). Esperar sinal da prega.
5. Bacia instável sem bloco disponível em <48h Ponte para cirurgia definitiva. Não é aceitável deixar bacia instável sem fixação.
💡 Tudo o resto é para osteossíntese definitiva imediata — incluindo fraturas diafisárias do fémur (encavilhamento), tíbia (encavilhamento), expostas G1/G2/G3A em doentes estáveis, e fraturas articulares com boas condições de pele.
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Antibioterapia nas Fraturas Expostas

Princípio fundamental: A administração precoce de antibióticos (<1h após lesão) tem maior impacto na prevenção de infeção do que o timing cirúrgico. Não há benefício comprovado de cirurgia noturna vs 1ª cirurgia da manhã, desde que ATB seja iniciada atempadamente.
Gustilo Antibioterapia Duração Timing Cirúrgico
I / II Cefazolina 2g IV (ou cefalosporina 1ª geração) 24h após lesão Dentro de 24h. Sem urgência para cirurgia noturna.
IIIA Cefazolina 2g IV + considerar aminoglicosídeo (controverso — evidência recente questiona benefício) 48–72h ou 24h após encerramento da ferida Dentro de 24h. Lavagem + desbridamento + OSS definitiva.
IIIB / IIIC Cobertura alargada: Ceftriaxona 2g IV + Vancomicina (ou protocolo local) 48–72h ou 24h após encerramento Lavagem + desbridamento urgente. Fixador externo + referenciação.

Contaminação especial: Solo agrícola → adicionar Penicilina alta dose (Clostridium). Água doce → cobertura antipseudomonas. Água salgada → Doxiciclina.
Profilaxia antitetânica: Sempre, conforme estado vacinal.

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Fluxo Organizacional — Equipas por Área Anatómica

Num hospital com equipas por áreas anatómicas (cada uma com bloco de trauma num dia da semana), a decisão de tratamento no politraumatizado deve ser coordenada pelo ortopedista de urgência / coordenador de trauma ortopédico, independentemente da equipa de dia.

Prioridade Ação Responsabilidade
IMEDIATA Fixação externa na bacia, lavagem de expostas, fasciotomias Equipa de urgência — qualquer ortopedista presente, independentemente da subespecialidade
URGENTE (<24h) Encavilhamento do fémur, encavilhamento da tíbia, OSS de expostas G1-3A Equipa de urgência + equipa da subespecialidade se disponível. Se critérios de Vallier +, não adiar.
PRECOCE (<48h) OSS definitiva da bacia, acetábulo, fraturas articulares complexas Equipa da subespecialidade — agendar no bloco de trauma da equipa responsável ou em bloco extra.
DIFERIDA (7–14 dias) Pilões tibiais, calcâneo, fraturas com edema/flictenas Equipa da subespecialidade — programar após sinal da prega positivo.
Regra prática: Quando um politraumatizado tem fraturas de múltiplas áreas anatómicas, o ortopedista de urgência deve coordenar as prioridades cirúrgicas com as diversas equipas. A falta de bloco no dia da equipa responsável não é justificação para adiar uma fratura diafisária do fémur ou uma exposta que necessita de lavagem e fixação definitiva.
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Critérios de Transferência para Centro com Plástica/Vascular

Transferência urgente:
• Gustilo 3C (lesão vascular) — após fixador externo e estabilização
• Amputação traumática com possibilidade de reimplante
Referenciação precoce (não urgente):
• Gustilo 3B — necessidade de retalho de cobertura
• Perdas de substância extensas sem possibilidade de encerramento primário
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Referências Bibliográficas

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  10. Prehospital Antibiotic Administration for Suspected Open Fractures: Joint COT/OTA/ACEP/NAEMSP/NAEMT Position Statement. Prehosp Emerg Care. 2024;28(8):1063-1067.
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